Meses atrás, tivemos a honra de participar do financiamento coletivo do livro “Cyberpunk – Registros Recuperados de Futuros Proibidos” da Editora Draco. Além do excelente livro, o sucesso da campanha garantiu um exemplar do quadrinho “Cangaço Overdrive” a todos os colaboradores. Material recebido e lido, cá estou para falar dessa HQ que une cangaço e cyberpunk.
Mas primeiro a sinopse, cabra!
Em um futuro possível, o Ceará enfrenta sua maior seca em séculos. Uma terra esquecida pelo governo e dominada pelos interesses dos conglomerados empresariais, este é o cenário árido onde um lendário cangaceiro e um impiedoso coronel são reanimados para continuar a peleja que deixaram no passado.
Enquanto isso, uma comunidade autogerida tenta manter a independência ao defender sua terra de um ataque da polícia orquestrado por uma grande corporação. Agora a honra e o orgulho dos guerreiros dos confins será revivida por aqueles que irão até o fim para defender aquilo que amam.
Só posso começar falando pela escolha incrível unir cangaço e cyberpunk! Esse “casamento” perfeito feito por Zé Wellington e Walter Geovani traz não só os elementos, mas também os personagens característicos desse gênero da ficção científica: heróis e vilões são conceitos que misturam. Agora pensa na figura do cangaceiro e como ele é visto. Essa dualidade não é essência do banditismo do sertão nordestino?
Além desta analogia, a narrativa faz uso da literatura de cordel para unir os gêneros. Esse foi o aspecto que mais me agradou no quadrinho, porque a estrutura do cordel me encanta e na minha opinião, flui como se fosse a voz de um contador de histórias. Outro ponto que faz a aproximação dos gêneros é a utilização natural da linguagem popular e dos flashbacks que retratam o cangaço.
Por fim, destaco como a obra faz um diálogo perfeito com o contemporâneo (como toda boa sci-fi deve fazer). Na estória vemos a relação das corporações com o estado, a vida difícil nas periferias, o abandono da região nordeste, etc. Ou seja, passado, presente e futuro dialogam o tempo inteiro. Mesmo eu que sou do sudeste, me identifiquei com algumas situações ali postas. Fico imaginando o peso dessa narrativa para quem vive uma realidade mais próxima.
Ao unir a mitologia dos cangaceiros com o gênero cyberpunk, Cangaço Overdrive traz reflexões pertinentes em um roteiro coeso, com muita ação e um trabalho visual fantástico. Fico sempre muito satisfeito quando me deparo com produções nacionais de qualidade, e o principal: com a nossa identidade. No mais, só me resta esperar que a continuação chegue um dia até nós.
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Aka Joe. Professor de linguagens místicas na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, profissional de estudos psíquicos na Escola Xavier para Jovens Superdotados, amador na arte de grafar e consorte da Bel. Entusiasta dos bardos, contadores de histórias, sábios, estrategistas, aventureiros, tabernistas e bobos da corte.