O Mundo Está Morto, de W.E.B Du Bois (1868-1963), foi um dos primeiros contos que li no Clube da Caixa Preta, financiamento coletivo que visa resgatar contos de autores negros nunca antes traduzidos, porém não menos importantes, feito pela Editora Escureceu. Tal título me impactou logo de cara, confesso, visto que já estávamos (e, infelizmente, ainda estamos) em meio à pandemia quando li, em setembro de 2020. Demorei para falar do conto de Du Bois, porque acabei “atropelando” com os demais contos que foram saindo ao longo dos meses. Mas agora, sem mais delongas, vou falar das minhas impressões.
Mas antes, mesmo que o Clube não forneça uma sinopse, vou tentar fazê-la, sucintamente:
Um cometa se aproxima da Terra. Este é o assunto do momento, mas todos seguem suas vidas, assim como Jim, um homem negro que trabalha como encarregado em um Banco na Broadway. A ele foi delegada, por seu chefe, uma tarefa nada fácil: adentrar nos cofres subterrâneos obscuros e fétidos do Banco, a fim de buscar antigos registros. Tal busca lhe proporciona viver num mundo totalmente diferente e assustador.
Já adianto que O Mundo Está Morto é um conto envolvente do início ao fim. É uma leitura de fácil compreensão, mas que, ao mesmo tempo, faz com que o leitor e o personagem descubram juntos o que pode ter acontecido com o mundo, após a imersão de Jim naquele cofre. Além disso, me vi imersa na incógnita do que aconteceria com um homem preto naquele mundo novo. Jim temia e seu temor era sentido durante a leitura.
Creio que essa ideia de um novo mundo e, principalmente, de um homem preto estar inserido neste mundo desconhecido, seria um ensaio para o que hoje conhecemos como afrofuturismo, onde através de uma perspectiva negra nascem elementos culturais, artísticos, sociais, filosóficos e científicos são misturados a todos estes mesmos elementos afrocentrados, afrodiaspóricos, a um realismo mágico e cósmico. E O Mundo Está Morto me parece que foi construído desse hibridismo cultural, filosófico, artístico, científico, social e também diaspórico.
Questões raciais e sociais estão inseridas neste conto, a função degradante dos trabalhos aos negros, mesmo em lugares suntuosos, ou ainda, a visão que uma pessoa branca tem de uma pessoa negra em dois atos: quando antes era feita a “maquiagem social” em que o branco conferia humanidade ao negro e quando as “máscaras sociais” caem, literalmente, e este último é visto com humanidade em definitivo por uma pessoa branca, sendo até capaz de despertar desejos e convivência social igualitária.
O conto apresenta uma estrutura textual um pouco diferente do que já vi, com relação ao uso dos sinais de pontuação. Mas ela não atrapalha a compreensão do enredo. O Mundo Está Morto foi muito bem traduzido por Stefano Volp, que decidiu por bem deixar que o leitor se confrontasse com uma pontuação diferente, na forma original do tradutor, cuja função do travessão, por exemplo, é destoante do que aprendemos e me vi nesse desafio de compreender o curso da leitura e, ao mesmo tempo, o que estava acontecendo com Jim.
O Mundo Está Morto é um conto que prende o leitor de uma forma surpreendente, pois começa com uma situação simples e que, em segundos, nos leva a um mundo diferente e assustador. O título e o conteúdo do conto de Du Bois se mantém atual (interpretando o “está morto” noutro sentido), mesmo tendo sido escrito há 100, 101 anos, pois permite uma reflexão ao tempo em que estamos vivendo, com uma pandemia que as pessoas interpretam de formas diferentes, respeitando regras ou não, e questões sociais e raciais que permanecem em pauta na sociedade. O Mundo Está Morto também pode ser um conto do agora.

“Eu sou Groot” e professora. Adoro assistir filmes e séries; ler livros e HQs e “eu QUERIA fazer isso o dia todo”. Espero ter “vida longa e próspera”…